POR QUE TANTA ESTRANHEZA?



Fazem parte da “carga” do meu veleiro:

- um GPS, imprescindível a bordo, Garmin Map 62;
- um sextante Astra IIIB, de alumínio, igualmente imprescindível.

A navegação astronômica, como ensinada nos cursos de capitão-amador, é um saco. É COMO ATARRAXAR UM PARAFUSO DE ROSCA GROSSA NUMA PORCA DE ROSCA FINA...

Feitas as simplificações necessárias, lógicas, e programado o computador para eliminar os cálculos, almanaque, tábuas e tabelas, é de entusiasmar: você entra com a data/hora (de Greenwich ou TU), altura lida no sextante (Sol, que é a nossa estrela), o erro do instrumento (que você mesmo determina periodicamente, fácil), e tecla ENTER. Pronto, está determinada sua posição: φ e λ (latitude e longitude).

Você tem que assimilar alguns poucos ângulos fáceis: azimute, altura, distância zenital, declinação, e dois ângulos horários: AHG e AHL. E só.

Em sala, com computador, eu ensinava o processo em menos de meia hora para uma turma de até 10 velejadores, realmente interessados em realizar a navegação (e não só para fazer exame). Depois, era praticar bastante, até assimilar o processo, com maiores detalhes, tudo muito interessante.

O computador resolve as seguintes rotinas: almanaque (efemérides, declinação e AHG), tábua (resolução do triângulo de posição), correção da altura lida no sextante, determina o intercepto (Δa e Azimute) e calcula as coordenadas geográficas (latitude e longitude).
Como estamos vendo, o computador faz tudo, através um programa bem simples. E tem a vantagem que resolve problema de qualquer ano. Isto, para estudo, é ótimo.

Naveguei muitos anos pelo Sol, empregando duas retas: a da manhã e a da tarde (HMG=1200 e 1400, geralmente), empregando o ANB e a tábua Radler, do Almirante Radler de Aquino de nossa Marinha.

Não havia alternativa à astronômica. Era ela ou nada.

Logo de início, após o exame de capitão, abandonei as HO-214, as 229 e a 234 (Air), que eram tábuas da “moda”. Porém, inteiramente impraticáveis. Impossível navegar num veleiro com elas, de sã consciência, a não ser que o cara seja masoquista. Só continuei usando o Almanaque Náutico DHN e suas tabelas. Quando surgiram as calculadoras programáveis e os laptops, eliminei essas perfumarias, embora as tivesse mantido no barco, claro.

As simplificações necessárias na programação são: altura do olho=2m (no cockpit de um veleiro de 30 e poucos pés), temperatura e pressão irrelevantes para as nossas águas tropicais do nosso litoral (resolvendo vários problemas com e sem, o resultado não se altera), portanto, desprezíveis.

A Tábua Radler, de tão prática, era adotada, inclusive, pela marinha do Japão.
Sua única desvantagem é que é de dupla entrada, o que, depois de alguma prática, acostuma e vicia.

Em 1983, simplifiquei os trabalhos, adotando as calculadoras programáveis HP- 45 e depois uma HP- 65, com cartões (fitas) magnéticos até que em 1985 comprei uma CASIO FX880P e a programei para uma reta e, depois, para duas retas. Além de 116 programas da biblioteca que ela traz: matemática, física, estatística, etc. ela vem com 10 trilhas de programação livres. Adaptei os programas contidos no livro de Guy Serane (Dunod) sucessivamente do Basic Standard para o Visual Basic, como está hoje no CD-ROM do meu livro Navegação Programada, no Visual Basic 6. A Casio ficou com um total de quase 200 aplicativos registrados (nesse mister, é até bem melhor que o laptop, além de praticamente não consumir energia).

A Casio FX880-P até hoje é fabricada por ser uma calculadora incrível: cabe no bolso da camisa, ou do abrigo, não consome bateria e tem memória de sobra para “trocentos” programas aplicativos. É muito usada em trabalhos topográficos e em astronomia de campo.

Adotar uma calculadora dedicada para navegação, como a Tamaya, não era boa coisa, uma vez que antes de qualquer cruzeiro tínhamos que recordar o processo de cálculo, coisa que na Casio era como se estivéssemos calculando na ponta do lápis: os mesmos parâmetros intermediários e o mesmo roteiro de cálculo, na “massa”.

Minha navegação pelo nosso litoral Leste era uma coisa agradável, tranqüila, cômoda: media a altura do Sol quando ele estava aos 60° de altura (aí pelas 12 HMG) e determinava a posição por uma só reta. Em alto-mar, longe de perigos, é o bastante. É como navegavam os Capitães do bacalhau e os nossos Mestres de traineiras do sul do país.

Se quisesse maior precisão, media outra altura do Sol depois da passagem meridiana, aí pelas 15 HMG e confirmava a posição. Nada mais cômodo.

Mesmo quando surgiu o GPS, o Magellan, continuei com o sextante por muitos anos, uma vez que a astronômica com a calculadora era muito mais rápida.
Hoje, junho de 2000, com o sistema global completo, o GPS nem sempre é mais rápido.

Continuo a usar a astronômica com a calculadora como garantia de autosuficiência.É um bom procedimento. No barco reina sempre uma inteira confiança, navegação tranquila, segura além de cômoda.

TENHA VÁRIOS GPS NO SEU BARCO, ALÉM DO FIXO, E, PELO MENOS, UM BOM SEXTANTE EM CONDIÇÕES DE SER EMPREGADO.

No kit de emergência, inclusive, mantenha um sextante de plástico ao lado do GPS de menor consumo que conseguir e BASTANTE PILHA.

Um exemplo, para ilustrar.

Lembro de uma ida a Noronha no Popeye II, do Múcio Porangaba, em 16 de setembro de 1988.

O Múcio, por falta de tempo, planejou a velejada de ida em duas pernas: uma Maceió – Recife e, no final da outra semana, Recife – Noronha.

Ele voltaria de avião à Maceió.
O cruzeiro durou até 02 de outubro, com um total de oito dias de mar e muito vento.

Íamos quatro veleiros da Flotilha Alagoana de Veleiros de Oceano: o “Mestre Rosalino”, um Brasília 32, o “Popeye II”, um trimarã projeto Jim Brown 33, o “Vida Mansa”, um Martinic 25 e o “Sun Shine”, um Maxi 23.
E os “cosmonautas” eram: Maya Pedrosa, Stenio, Humberto, Fernando e Jorge Nacinovic (no Mestre Rosalino), Mucio Porangaba, eu, Paulo Roberto, Plínio e José Raimundo (no Popeye II), Fábio, Eduardo, José Cavalcante, Túlio e Paulo (no Vida Mansa), Cláudio, Aldemar e Clóvis (no Sun Shine).

Na praia de Serrambi, a meio percurso, depois da ilha de Santo Aleixo, próximo ao limite Alagoas/Pernambuco, quase chegando a Tamandaré, paramos para um churrasco na casa do casal amigo José Rocha e Tila.

Cerca das 16 horas reiniciamos a velejada para Recife, onde chegamos de madrugada, vento firme à favor, LESULÉ, como dizem por lá.

Durante a semana no Cabanga o Múcio mandou instalar um transceptor HF-SSB para falar de Noronha a Maceió, direto.

Logo na saída da ilha para Recife, de volta portanto, foi notada uma grande perda na rede elétrica do barco, supomos pela má instalação do tal HF-SSB, não impedindo, porém, a comunicação com Maceió e, em seguida, antes de eliminarmos da rede o SSB, a bateria arriou, as células solares não dando conta. Ficamos sem eletricidade a bordo, sem comunicações, sem luzes de navegação e sem partida do motor auxiliar, um Yanmar de dois cilindros, novinho. Assim, o GPS, fixo da mesa de navegação, não podia funcionar.
Na época, não proliferavam os GPS como hoje e não havia alguém com algum no bolso.

Na estimada, ao chegar a hora de cambar para Recife por proximidade da costa, não identificada por causa de névoa-seca, para que bordo guinar?
Poderíamos estar acima ou abaixo de Recife.

Metade da tripulação opinou guinar para boreste e a outra, para bombordo, cada qual revestido dos maiores argumentos, defendidos com veemência: correção excessiva da corrente, da deriva anormal, tendência do barco, “manias” próprias dos timoneiros, etc.

Uma visada de sextante do Sol e a solução instantânea pela Casio resolveu a questão: guinada para bombordo (uma hora depois confirmada, avistando-se a chaminé da Tacaruna). A gozação sobre a turma de boreste foi grande.

Caso não tivéssemos a alternativa da astronômica, sem motor, naquela quase calmaria, teríamos passado sufoco. Se a escolha fosse para boreste, escolhida possivelmente na base da “pourrinha”, teríamos ido bater em Cabedelo...

Conclusão
O GPS é fantástico; não se pode prescindir dele, mas o bom senso indica que devemos ter autosuficiência em navegação. E a única solução é a astronômica/GPS. Não tem o que discutir.
Ou você tem preguiça de adquirir novos conhecimentos? Preguiça mental, própria de quem já assimilou o corolário de Alzheimer ou Parkinson???

As pilhas da Casio FX880-P duram mais de dois anos em operação intermitente, uma ou duas vezes ao dia.

O GPS come muita pilha e ligá-lo na bateria do barco é perder sua principal característica. O fixo, na mesa de navegação, só funciona se a bateria estiver com carga...

E, nunca esquecer: manter a Tábua Radler e o Almanaque do ano no veleiro!

O GPS dura muito pouco tempo no ambiente salgado do barco e, mesmo, temos que ir “aperfeiçoando” o modelo, já com pouco tempo tornado obsoleto.

A Casio, nem sempre necessita ficar no barco; só nos longos cruzeiros.

Nenhuma descarga elétrica atmosférica (raio) interferiu, nem na Casio nem no GPS, em mais desses últimos vinte anos. A única interferência no GPS foi quando uma das baterias do barco explodiu, por falha do regulador de carga, jogando a tampa do beliche pro alto; o centelhamento obrigou a reconfigurar o GPS.

Minha grande satisfação, nos longos percursos, é checar a posição dada pelo GPS.

Ou vice-versa!!!

O sextante, você compra um excelente Freiberger pouco usado, recondicionado e aferido, aí pelos 600 dólares, em Miami.
Com cuidado, ele dura décadas...

Você jamais se arrependerá de tê-lo comprado.





 
 
 
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