O VELHO DILEMA

Hoje os parâmetros estão mudados. trinta anos são passados e as coisas mudaram.
Se eu fosse construir um veleiro, escolheria que tipo?

Um monocasco, como o revolucionário Pop 25 do “Cabinho”?
Um multicasco?
Um Netuno 388 da Barracuda Náutica?

Ou um BruceRoberts CAT 39 ?

Leia o artigo abaixo, escrito por um “multicascquista”, mas cheio de argumentos lógicos.
(artigo pescado alhures na Internet)

Regra Geral
Virar e afundar são os acidentes mais importantes na navegação à vela. Como a engenharia de monocascos e multicascos é diferente, vale a seguinte generalização:


Multicascos podem virar, mas não afundam se tiverem densidade média menor que um como é habitual.

Monocascos podem não virar, mas afundam se tiverem densidade média maior que um como é habitual nos barcos lastrados.

O lastro é um recurso eficiente para desvirar um barco sem intervenção dos tripulantes, mas o processo não é 100% garantido nem instantâneo. Por exemplo: se a cabine estiver aberta, o barco pode inundar e afundar antes de desvirar. Quem veleja com a cabine hermeticamente fechada no Brasil ou nos trópicos?
(carregar um peso de mais de uma tonelada só para evitar virar...???).

Apesar de que há exceções, a generalização acima se deve a que os multicascos não têm lastro e geralmente são construídos de materiais leves, então geralmente eles são insubmersíveis. Já os monocascos geralmente são lastrados e por isso podem afundar.

Só para constar, os principais fatores que ajudam um barco – qualquer barco – a ser insubmersível são:

Construção com material em média mais leve que a água.

Compartimentos estanques.

Se houver lastro (quilha, motor, ferragens, etc.), que a reserva de flutuação do casco seja suficiente para sustentar seu peso à tona.


Desinformação
Um argumento muito popular, mas muito incorreto, contra os multicascos é a sua suposta insegurança. Isso é herança de um tempo em que virar e afundar eram sinônimos, porque era praticamente impossível receber auxílio depois de um acidente. Na verdade as duas coisas são totalmente diferentes.

Segurança no Passado
O padrão de segurança para navegação antigamente era de auto-suficiência total, porque nenhum barco podia contar com socorro rápido. Um monocasco dotado de um poderoso contrapeso que podia desvirar o barco dava certa auto-suficiência em relação a virar. O problema é que isto fazia os projetistas deixarem de lado tanto o risco de o contrapeso arrastar o barco para o fundo depois de uma colisão ou vazamento; como o incrível desperdício de energia necessário para arrastar por todos os lados um lastro pesadíssimo.

Entre os “ multicasquistas”, dizemos que os monocascos são “arrastadores de chumbo”.
Um IACC da Américas Cup poderia ser definido como uma tonelada de casco, velas e ferragens feitos de materiais caríssimos com o propósito de arrastar 19 toneladas de chumbo através da raia. E o pior é que um cat com a metade do seu tamanho e menos de 10% do preço anda na frente deles (e não afunda).

Segurança Hoje
O padrão de segurança atual é totalmente diferente. O socorro é pedido por telefone, via satélite ou EPIRB e sua localização exata está num GPS que cabe no seu bolso, ou até no seu relógio. O socorro chega muito mais rápido até você e voltar para casa em segurança só depende de não afundar com o barco. Considerando que um monocasco comum afunda quando inundado e que um multicasco comum é insubmersível, onde você prefere esperar por socorro: boiando na água, num bote inflável (se ele funcionar) ou em cima de um multicasco virado?

Última Instância
Comparando os dois tipos de barco, a estabilidade máxima de um multicasco é encontrada quando ele flutua de cabeça para baixo, posição em que ele é um excelente barco salva-vidas. Já um monocasco encontra sua posição de estabilidade máxima (derradeira) descansando no fundo no mar, onde ele vira uma excelente casa para peixes ou recife artificial. Em última instancia, a insubmersibilidade dos multicascos dá mais segurança.

Publicidade
Entretanto, esta mesma característica sempre atrai a publicidade marrom aos acidentes de multicascos. O afundamento de monocascos raramente é notícia de destaque principalmente porque não deixa traços ou evidencias para serem fotografadas, as tripulações podendo até desaparecer. Foto de monocasco afundado só aparece mesmo em revista de mergulho. Já os acidentes com multicascos atraem fotógrafos porque tanto o barco como os tripulantes ficam disponíveis e bem visíveis para as manchetes do dia.

Recentemente um veleirinho monocasco afundou na Bahia. Naturalmente não há nenhuma foto nem muita publicidade a respeito. Ele simplesmente foi inundado por ondas e afundou quase instantaneamente. Se fosse um cat virado, as fotos estariam em todas as revistas de vela – mas o barco não teria sido perdido, nem a vida dos tripulantes teria sido exposta a um risco tão grande. Eles tiveram que nadar praticamente até a praia porque não deu tempo de inflar um salva-vidas.

Velejar é seguro
A verdade é que ambos os tipos de barco são extremamente seguros, muito mais que barcos a motor, jet-skis ou aviões pequenos. Tudo que eles necessitam são técnicas diferentes para administrar situações e características diferentes.

Virar é o único risco significativo para os multicascos, sendo a colisão com objetos flutuantes muito menos problemática devido ao pequeno calado. Uma virada é consideravelmente menos terminal do que um afundamento repentino e pode ser facilmente evitada rizando ou reduzindo a velocidade.

Bom Senso
Neste sentido, um multicasco necessita um nível razoável de maturidade ou bom senso para ser operado com segurança dentro dos seus limites, exatamente como outros veículos. O desempenho não é limitado por dispositivos de segurança ou pelo próprio peso (caso dos monocascos) e cada comandante tem a opção de velejar na velocidade que preferir. A relação velocidade/segurança é decisão do comandante.

Num barco com uma velocidade máxima acima de 20 ou mais nós e que pode manter médias acima de 15 nós, estabelecer um limite pessoal de velocidade de, digamos, 15 nós e manter a média em uns 10 nós deixará uma margem de segurança muito confortável para velejar com a família sem nenhuma preocupação.

Indicadores e recursos
Cada tipo de barco tem seus indicadores de perigo diferentes, recursos diferentes e riscos últimos diferentes. Mas diferente não significa pior. Um avião a jato não é pior por ser mais rápido e diferente de um a hélice.

Saber velejar um monocasco com segurança é diferente de saber velejar um multicasco com segurança.
Alguns exemplos:

O principal indicador de excesso de potência num monocasco é o ângulo de adernada. Quando o multicasco chega a adernar, ele já deveria ter sido rizado há muito tempo.

Orçar é um recurso mais utilizado para reduzir a potência do monocasco. No multicasco frequentemente é preferível arribar.

A proa debaixo da água num monocasco é uma situação transitória e que geralmente não significa nada. No multicasco, o afundamento gradual da proa é um indicador do excesso de potencia disponível.

Vantagem da Velocidade
A capacidade de alcançar altas velocidades possibilita desviar, evitar ou posicionar-se melhor em relação ao mau tempo, enquanto outros barcos mais lentos são obrigados a continuar expostos ao que vier. Na pior das hipóteses, um multicasco sofre por menos tempo na tormenta.

Estatísticas
O projetista Ian Farrier, inventor a quase 20 anos do mais popular sistema de trimarãs retráteis, contabiliza mais de 2000 trimarãs retráteis navegando e já tem uma boa idéia dos números reais de acidentes. Ele calculou a percentagem de viradas em 0,2% anual em regatas e aproximadamente 0,05% para velejadores de cruzeiro.

Para comparação, a taxa atual de acidentes sérios (que resultam em morte ou feridos graves) entre os aviões pequenos nos Estados Unidos é de 1,13% ao ano, tendo descido de incríveis 10,2% em 1948. Para que os trimarãs retráteis tivessem uma taxa de acidentes graves equivalentes ao dos aviões pequenos hoje em dia, deveriam ter ocorrido em média 22 viradas ou acidentes graves por ano e ainda por cima com freqüentes perdas dos barcos e tripulações junto. A realidade é de 3 a 4, quase todas em regatas e sem vítimas fatais ou feridas graves. Mortes e perda total do barco são raríssimas e os números são tão baixos que nem tem significado estatístico.

Conclusão
Os multicascos são embarcações mais rápidas que os monocascos e diferentes deles em vários aspectos que têm que ser avaliados ponto a ponto conforme as preferências pessoais do dono, mas sem dúvida o quesito segurança faz a balança pender para o lado dos multicascos.






 
 
 
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